O Québec é meu lugar?

Salut, salut!

Com purê ou sem purê? Coloco vinagrete? Milho ou ervilha? Com certeza você já se perguntou algumas vezes o que deve ou não fazer, ou quem sabe, se algo é certo ou errado e se você deve ou não aceitar.

Pensando assim, você acredita que o Québec é seu lugar? Talvez esse post possa fazer você repensar e até mesmo ter que refletir sobre alguns conceitos.

E se você descobrisse que os assuntos mais polêmicos atualmente no Brasil e que, talvez, você seja totalmente contra já tivessem sido discutidos na sua possível futura nova terrinha e que muitos deles fossem, inclusive, legalizados? Pois é!

Pode ser que ler este post cause um certo “malaise” dentro de você, ou que faça você refletir, mas pode ser que faça você repensar na ideia de se mudar para o Québec, ou até mesmo para o Canada.

Que tal começarmos pelo assunto mais “leve”?

Feminismo, roupas curtas e slutwalk

Aham… Tá tá tá! Coloca seu purezinho de batata no seu dogão e antes de comentar um “feminazi” dê uma lida e use aquela parte do cérebro meio esquecida das aulas de português chamada “interpretação de texto”.

O feminismo no Québec é um movimento que trata da igualdade das mulheres, seja no mercado de trabalho, no lar e até mesmo na decisão monoparental (ter filho sem ter cônjuge). Não! Raramente você verá mulheres protestando na rua com seios de fora para pedir melhor salário (?), mas se você soltar uma piada que soe machista (por exemplo “mulher no volante perigo constante”), talvez você chame a atenção de todos à sua volta. E caso você esteja num bar, as pessoas nas mesas próximas também te olhem com um tanto de desdém.

Isso porque a luta das mulheres pela igualdade sempre foi árdua, mas aqui se vê muito mais igualdade. Sejamos sinceros: não é perfeito, mas há de se tirar o chapéu para o nível que o Québec está. A cidade de Québec já foi escolhida umas tantas vezes como uma das melhores cidades para as mulheres e não somos nós quem está dizendo.

Aqui também existe uma cultura do “seu espaço termina onde começa o meu” e pode ser que no verão você veja mulheres usando shorts mais curtos que os biquinis norte-americanos. Então… Não é nenhuma piriguete com fogo no rabo abusadinha. Não, não é nenhuma mulher querendo aparecer. A questão é que aqui elas possuem a liberdade de se vestirem como acham que ficarão confortáveis sem pessoas julgando. Pode ser que na cabeça de cada um há um (pré)conceito, mas morre ali e não passa pela boca. Porque se passar, as penalidades podem ser severas por discriminação e preconceito.

slutwalk-marchersA slutwalk é um protesto que foi criado em Toronto após um agente de polícia dizer “elas [mulheres] devem evitar de se vestir como vadias para não serem vitimizadas [violentada]”. E assim surgiu a marcha, que acabou por ser difundida em vários outros lugares do mundo. A ideia básica é de garantir o direito da mulher de ir e vir, se vestir como bem entender, sem dar o direito ao próximo de julga-la ou de dar a liberdade para a violência, seja ela verbal ou física. Neste caso, até pior, o estupro.

Assim sendo, nós recomendamos fortemente você deixar seus pré-julgamentos guardados no fundo da gaveta da cômoda na hora de sair pra passear por Québec.

Casamento homossexual

No Canada, em geral, o casamento homossexual é legalizado há um bom tempo. No Québec, por exemplo, a união estável (que conta praticamente como casamento perante o código civil) é legalizada desde 2002.

Sabemos muito bem que a luta por estes direitos não são simples e mais difícil ainda é conseguir fazer com que a sociedade mude seu conceito, passando a respeitar e aceitar a escolha alheia. Não é algo que acontece da noite para o dia, mas para os “quebecos” isso é uma realidade.

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Isso já fica claro ainda quando começamos a pesquisar sobre o processo de imigração, onde eles deixam bem claro que “Qu’ils soient unis civilement ou mariés, les conjoints — de même sexe ou de sexes différents — demeurent égaux devant la loi. Les responsabilités des parents envers leurs enfants sont les mêmes sans égard au type d’union (mariage, union civile ou union de fait).” (Apprendre le Québec, p.14).

Que eles [casal] tenham união estável ou casados, os cônjuges – de mesmo sexo ou de sexos diferentes – permanecem iguais perante a lei. As responsabilidades dos pais com seus filhos são os mesmos sem referência ao tipo de união (casamento, união civil ou união estável).

Assim sendo, não será difícil você encontrar um casal homossexual abraçado, de mãos dadas ou se beijando onde quer que seja. Nada exagerado, escancarado ou que desrespeite o próximo, normal. Todo e qualquer tipo de desrespeito ou discriminação tem punição severa, além de ser muito mal visto pela sociedade quebequense.

Drogas

Calma! As drogas no Québec não são liberadas, nem em outros lugares do Canada… Ainda. Sim! Ainda, porque o primeiro ministro do Canada, Justin Trudeau, tem como plano a discriminalização e legalização da maconha. Em algumas províncias há a possibilidade da prescrição para uso medicinal que é legalizada por lei.

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Apesar de o uso recreativo não ser permitido, existe uma tolerância para quem usa e/ou carrega em pequenas quantidades, discriminalizando o usuário. No geral, as pessoas preferem discutir esse assunto com os filhos do que simplesmente proibir e nem comentar ou esconder a realidade. É claro que existem usuários viciados e que abusam das drogas, assim como as que abusam do álcool ou até mesmo de um simples Ibuprofeno (medicamento vendido nas prateleiras das farmácias para dores).

Assim sendo, não se espante caso você esteja numa festinha e alguém ascenda um “baseadinho”. Não julgue as pessoas por isso. Acredite ou não, as vezes uma delas um dia poderá ser seu chefe! Cabe a você querer ou não e ninguém irá obrigar ou te julgar pela sua opção. Além do mais, no Canada em geral, é preferível a polícia te parar e você estar com “unzinho” aceso na mão do que com um copo de cerveja.

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Consumo em locais públicos é proibido.

A propósito… Bebidas alcóolicas são totalmente proibidas em locais públicos não destinados para tal. Você vai em um show? Lá vende a bebida? Sem problemas, você pode comprar e beber no local, mesmo que seja um show organizado em parceria com a prefeitura (por exemplo o FEQ). É preciso uma permissão das autoridades locais para sua venda, mas sua consumação deve ser feita no local e você não deve sair com ela passeando pelas ruas. Você pode ter o desgosto de ser parado pela polícia e depois receber uma multinha de mais de CAD $200 na sua residência.

Se você chegou até aqui neste post você já está de parabéns! Mas agora, vamos ao assunto, talvez, mais polêmico. Você está preparado? Bora…

Aborto

É! Nós sabemos e também entendemos que este assunto é bem polêmico. Ele pode tocar bem no fundo dos ideais de cada um, seja religioso ou não. Porém, seremos neutros neste post e falaremos apenas “sobre”, sem trazer a discussão para o certo ou o errado.

O aborto no Québec é legalizado e faz parte da saúde da mulher e do planejamento familiar. O tratamento é diretamente ligado a decisão delas e não concerne a mais ninguém. Sejam familiares, amigos, cônjuge, médico, governo, não importa. Isto só muda quando a mulher não tem a capacidade plena de tomar essa decisão sem auxílio.

Portanto, uma mulher pode decidir, sozinha, sem intervenção e com total confidencialidade se ela pretende ou não fazer um IVG. Todo o processo tem um acompanhamento médico completo e é feito pelo sistema público de saúde. É claro que tudo é tratado com cautela e o médico apenas fará o procedimento com a certeza de que a mulher tomou a decisão certa. Todas essas informações podem ser encontradas no site Portail santé mieux-être do próprio governo do Québec.

Acredito que se você, ainda assim, chegou até aqui e ficou espantado/a com tudo isso, talvez seja melhor nem ler o que vamos escrever agora. Realmente pode chocar um pouco, mas essa é a realidade e você precisa estar preparado/a, caso ainda queira vir pra geladeira pro Québec. Então, vamos lá:

A partir dos 14 anos a menina mulher, pela lei no Québec, tem o direito de consentir e decidir sozinha por um aborto sem a intervenção de ninguém em sua decisão. Nem dos pais, tutores ou responsáveis legais. Inclusive, ela pode ir até o médico, decidir e fazer todo o processo em total sigilo. Os pais, tutores ou responsáveis só serão comunicados caso ela precise ficar internada por mais de 12h num hospital ou clínica. Caso contrário, eles podem nem ficar sabendo, nem hoje, nem amanhã e talvez nunca, que a filha de 14 anos tenha feito um aborto.

educaloiSe ela tiver menos de 14 anos ela não poderá decidir sozinha e cabe aos pais, tutores ou responsáveis a tomada de decisão. Porém, se houver divergência, por mais que consideremos uma menina de menos de 14 anos uma criança, ela poderá recorrer na justiça e será ali que a decisão será tomada.
Acredito que você deva estar se perguntando “mas de onde esse blog tirou essa ideia de girico?”. Calma, não criemos pânico! Estas informações podem ser encontradas no site Educaloi, um organismo que trabalha em parceria com o governo do Québec e do Canada para facilitar o entendimento de leis e regras da sociedade.

 

Bom, é isso aí! A ideia deste post não é polemizar e muito menos criticar ou querer mudar sua opinião, crença ou ideal. Queremos informar e deixar claro o tamanho do iceberg lugar desconhecido que você pode estar pisando. Também não queremos afugentar ninguém que pensa em imigrar para o Québec, mas talvez repensar e refletir se o Québec é realmente o seu lugar.

Portanto, ficamos por aqui. Bom apetite e não esqueça de dividir seu dogão conosco aqui embaixo, nos comentários!


 

Glossário deste post

  • Malaise – mal-estar;
  • Slutwalk – Marcha das vadias;
  • FEQ – Festival d’été du Québec;
  • CAD – Dólar canadense;
  • IVG – Interruption volontaire de grossesse (interrupção voluntária de gravidez).
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8 comentários em “O Québec é meu lugar?

  1. Ola!
    Sou québécoise e eu gostei bastante do seu post. São assuntos que precisão ser clarificado mesmo. Tem a question da religião que você poderia ter falado também . É um assunto ++ polêmico e os québécois tratam esse asunto duma maneira bem differente dos brasileiros na minha opinião. Parabens!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Wow! Merci beaucoup Elsy!

      Fiquei muito feliz em receber um comentário positivo de uma québécoise! Afinal, ninguém melhor do que alguém do Québec para isso.

      Se possível, gostaria de conversar com você sobre o assunto, assim poderei fazer um post sobre religião e a verdadeira visão do québécois. Isso pode ser bem interessante para quem quer imigrar.

      E obrigado novamente! 🙂

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  2. Sinceramente eu tenho minha opinião diferente sobre o aborto em si, mass, acho que isso já está bem resolvido a quem de direito, e acredito que possa e deva ser conversardo com minha família diretamente para expressar a minha opnião…
    Eu penso exatamente isso quando viajo nas ideias de planejo mudar pra Montreal.. eu vou ter aprender a respeitar uma cultura diferente.
    Parabéns pelo post ficou mto bom e explica bastante coisa =)

    Curtido por 1 pessoa

  3. Fala Gianni, blza. Muito legais as informações.
    Acho que uma coisa muito interessante que vc poderia incluir nesse post (pois sei que ele é apenas a ponta do iceberg) é a questão da aposentadoria. Algo tão essencial na mentalidade do trabalhador brasileiro. Eu ouvi dizer que não existe previdência social no Canadá. Lá eles fazem a sua própria previdência através de poupança. É isso mesmo? Ta aí uma coisa que vai mexer com o mindset de muito aspirante por aqui… Não?
    Um abraço.
    Ig
    PS crítica construtiva: seu português está errado em: ‘Não criemos pânico’…
    O correto é: ‘não priemos cânico’ blza kkkkkk

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  4. Fala meu amigo!

    É bem complicado, para pessoas com “valores” pré-estabelecidos, conseguirem aceitar o real “livre arbítrio” de suas vidas, sem haver um, no mínimo, um pré-julgamento devido aos conceitos, de sua sociedade, que foram devidamente inculcados em vossas mentes. Esses valores morais, que na verdade são “tomar conta da vida alheia”, quando minimizados, causam as detidas estranhezas, de uma sociedade quase nada liberal.

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  5. Lendo esse post só me dá mais vontade de morar em Québec. Eu vejo um respeito muito grande em relação aos direitos das mulheres e dos homossexuais e isso me deixa muito feliz.

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