“Ir pra outro país é fácil!”

Salut, salut!

Depois de algumas décadas desaparecido, venho dar as caras. Dessa vez o hot-dog tá mais pra pavê que pra cumê. Resolvi contar um relato, uma história. Talvez para inspirar os aspirantes, quem sabe para mudar algumas opiniões, mas com certeza, para mostrar que “Ir para outro país é fácil!” não é uma verdade.

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Você que pensa em sair ou saiu do país, já deve ter ouvido essa frase. A bendita frase que mexe muito com quem está num processo de imigração, de expatriação. Dói né? Espero que ouvir isso não tenha te desanimado. Mesmo que tenha sido de alguém que considera amigo ou até mesmo de alguém da família.

Hoje eu vou contar o relato de uma pessoa, como foi o processo dela, como ela imigrou, se integrou e onde está no momento.

Descobrindo a imigração (e o Québec)

Foi em 2009 que ele descobriu a imigração para o Canada e, principalmente, para o Québec. Um colega de trabalho lhe mostrou uma reportagem numa revista. A reportagem comentava sobre as “maravilhas” da imigração e como o Québec acolhia os recém-chegados.

imigracao-quebec-1493154120Obviamente, reportagens são bem floridas e cheias de palavras chamativas como: sistema de saúde público e gratuito para todos, taxa de desemprego baixíssima, criminalidade extremamente baixa, qualidade de vida alta e salários que ultrapassam R$ 10.000 (??? – recomendo a leitura deste post: Canada busca profissionais brasileiros para ganhar até R$ 15 mil mensais – post antigo). Na hora ele pensou que fosse mais um daqueles anúncios de “consultorias” buscando gente para trabalhar em colheitas de morango (nada contra, inclusive funciona), mas no final tinha um link para o site oficial do governo do Québec.
Intrigado com a informação, ele resolveu ler mais informações neste site, que na época estava em português e o link era bem simples. Tudo isso porque o escritório do Québec ficava em São Paulo.

Neste site foi possível se inscrever para uma palestra, ainda em 2009. Esta que era dada em português por Soraia Tandel, a representante do governo do Québec, em seu escritório, em São Paulo. Lá as coisas ficaram um pouco mais claras. Haviam, mais ou menos, 200 pessoas na sala. Todos bem compenetrados em saber o momento em que diriam “façam as malas amanhã e viagem para o Québec!” Não foi o caso. Apesar de tudo bem explicado e realmente parecer um paraíso, mais da metade da sala se levantou e foi embora no meio da apresentação. Isso aconteceu exatamente no momento em que a apresentadora disse:

– O idioma oficial do Québec é o francês e é necessário que o candidato apresente um documento comprovando o estudo de, ao menos, 150 horas do idioma.

Coincidência ou não, é espantoso como essa frase, hoje em dia, renderia alegrias aos novos aspirantes à imigrantes. Atualmente, é necessário apresentar um certificado de francês com um nível mínimo B2 (intermediário para avançado), para pontuar alguma coisa no idioma.

Hora de aprender francês

Fim da mamata. Tudo entendido, é hora de partir para estudar francês. Para quem acha que é fácil imigrar para outro país, começa aí a primeira dificuldade: aprender um novo idioma. Aquele cursinho de inglês na escolinha, ou o espanhol que se aprende com os amiguinhos é legal sim. Vale a pena, principalmente se você for viajar e passear em outro país ao qual você poderá usar aquilo que aprendeu. O problema começa quando você precisa VIVER em outro idioma que não seja aquele que você ouve desde que nasceu.

Falar outro idioma é fácil! O difícil mesmo é você conseguir se expressar, demonstrar descontentamento, alegria, falar de sentimentos e outras coisas mais. E isso não acontece da noite para o dia. É preciso muita dedicação, vontade e imersão. E é por isso que a metade dos 100 que restaram na sala desistiram depois de iniciar o curso de francês. Agora restavam 50 dos que assistiram a palestra.

le-quebecois-10-leconsPara ele, aprender um novo idioma era fascinante. Um motivo à mais para se integrar em uma nova sociedade, mesmo sabendo de todas as dificuldades que seria viver em uma nova língua que não a materna.

Muitas escolas de idiomas no Brasil não dão cursos intensivos em todos os níveis. É fácil entender o por que. Tem muita gente que diz que não tem tempo e por isso não faz um intensivão, mas se pararmos pra pensar em “qual é o seu maior sonho?”, talvez tempo e dinheiro não seja o problema, mas uma palavra bem mais conhecida, chamada MEDO, e ela cai bem em uma certa frase: “MEDO DO NOVO”.

Imersão total

Já em 2011, ele decidiu partir para a aventura da imersão do idioma. Hora do tudo ou nada, afinal, é preciso um bom entendimento e planejamento na hora de imigrar. Como o inglês era algo que o deixava mais confortável, para o caso de uma necessidade extrema, ele optou por um curso de francês em Montréal. Seriam 4 semanas, 25 horas por semana, ou seja, 5 horas de aula por dia nos 5 dias da semana.

Diferentemente de muita gente, a necessidade de falar e entender bem o idioma, para ele, era praticamente obrigatório. Não dá para viver sem comunicação, não é possível se integrar sem poder entender e sem se fazer entender. Então a melhor estratégia era sair da aula e não ir pra casa fazer a lição e completar o livro de exercícios, mas sim, partir para lugares onde era possível uma interação social. O melhor lugar para isso? BARES! Sim. Era pra onde ele ia todos os dias depois da aula. Ok! Ele não era o melhor aluno quando os professores perguntavam quem tinha feito os exercícios, mas era quem sabia responder tudo e que em 2 semanas já estava conversando facilmente.

É claro que cada um aprende de uma forma diferente e tempos diferentes. Portanto, dizer que essa foi a melhor escolha, talvez para ele tenha sido. Nesse momento da história, outra metade já estava desistindo, ou seja, restavam 25 interessados ainda em imigrar e que continuavam os esforços. Como dito antes, aprender um novo idioma não é tão simples e essa dificuldade faz muita gente desistir. O tempo, dinheiro, a dificuldade, o alto esforço e não conseguir visualizar o o fim do caminho são os maiores inimigos.

De volta à realidade

5 semanas se passaram e ele voltou ao Brasil. O francês na ponta da língua e a vontade de imigrar era ainda maior, e mais clara. Montréal era o lugar! Pessoas acolhedoras, uma cidade pulsante, cheia de novidades, empregos e muita coisa à oferecer. Mas será que só isso era suficiente?

Era necessário preparar todas as documentações para solicitar o bendito CSQ. O tão esperado papel pelos mais ansiosos futuros imigrantes. Nessa época não era necessário tradução dos documentos, mas sim aguardar por uma entrevista com um tipo de “headhunter” de imigrantes. O francês era mais do que necessário para poder explicar o porque ele queria imigrar para o Québec e porque o Québec precisava dele. É mais ou menos aqui que, entre 5 e 10 pessoas, desistem do processo. Estamos agora com 15 à 20 esperançosos em chegar ao tão sonhado Canada.

No dia 18 de maio de 2011 ele enviou a demanda ao BIQ. Essa era a parte fácil. Aguardar uma resposta e torcer para que tudo estivesse certinho. Neste momento não há o que fazer. É questão de paciência diante do silêncio. Tudo era feito pelos correios. Sim, estamos falando do século XXI e do ano de 2011!

Se você não reparou durante a leitura e ainda acha fácil ir pra outro país, leve em consideração que tudo começou pra ele em 2009 e aqui já estamos em 2011 e, portanto, já se passaram 2 anos.

Cair e levantarolzpd

Ainda no ano de 2011, ele acabou tendo a chance de participar de uma Missão de Recrutamento do Québec en tête (mais informações você encontra neste post – antigo – Missão de recrutamento). Era hora de testar o ouvido e de mostrar que a imersão realmente funcionou. Ele se cadastrou e enviou o CV, atualizado e em francês, para as vagas que lhe interessavam. Uma das empresas acabou convidando ele para uma entrevista. Chance perfeita para acelerar a ida para o Canada.

A entrevista foi promissora e os elogios ao francês ainda mais. Infelizmente a vaga foi cancelada para o seu perfil, uma vez que a licitação ao qual a empresa estava participando, não seguiu em frente.

Mas como tudo isso faz parte das dificuldades da imigração (para quem ainda acha fácil), é importante lembrar que a experiência é sempre válida. Foi uma ótima aprendizagem e serviu para mostrar que tanto o idioma, como seu perfil profissional eram interessantes.

O “infelizmente” do mês de julho, veio com um “felizmente” no mês de agosto. Foi quando ele recebeu a convocação para a entrevista de imigração. Coração batendo a mil, mas pé no chão. Era hora de se preparar para o bate-papo com o agente que poderia entregar o CSQ ou dizer “tente novamente mais tarde”.

CSQ ou não CSQ? Eis o medão!

9 de dezembro de 2011. Essa é a data que ficou marcada na parede, na agenda, no celular, com 200 alarmes, notas em todos os lugares possíveis para não esquecer. Dia da entrevista para obter o dito cujo. Nessa entrevista era necessário provar que o nível de francês, esse que foi comprovado com as horas de estudo, era suficiente para sobreviver ao inverno mais rigoroso da América do Norte quando o aquecimento não funciona e você precisa falar com seu proprietário cheio de sotaque, mas também para conseguir um trabalho e, acima de tudo, se integrar à sociedade do Québec.

Ele e sua esposa estavam prontos? Talvez! O difícil é acreditar em você mesmo. Por mais esforço que todos nós façamos, raramente acreditamos que estamos prontos para uma mudança tão radical. Esse era o momento de provar que sim, estavam prontos, mesmo pensando o contrário.

Entrevista feita, CSQ em mãos, era hora de comemorar, chorar e começar a blindar o coração de saudades. Esse documento era 75% do caminho para a imigração. A partir daí, a ideia da mudança começa a ficar mais clara. Por incrível que pareça, algumas pessoas decidem desistir nesse ponto. Algumas acabam caindo na real e percebendo que não é exatamente o que quer, ou simplesmente pela demora de todo o processo, lembrando que depois dessa parte é necessário solicitar o visto de imigração. Na época, o pedido do visto podia levar até 23 meses para sair.

O processo federal e suas mudanças em má hora

Geralmente, as pessoas já levavam todos os formulários do processo federal preenchidos e os documentos necessários dentro de um envelope. A única coisa que faltava ali era o CSQ. Portanto, saiam da entrevista com ele, colocavam dentro do envelope e iam até o andar onde ficava o consulado do Canada (em São Paulo). O BIQ ficava no mesmo prédio.

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Infelizmente para eles isso não foi possível. No dia 1 de dezembro de 2011 o processo federal foi alterado e a exigência de traduções juramentadas passou a ser uma realidade. Além disso, não era mais o consulado quem recebia o dossier e sim o escritório de centralização de demandas de imigração, em Sydney (não, não é Austrália), Nouvelle-Écosse. Pequeno atraso. Começa a corrida para conseguir todas as traduções e preencher os novos formulários.

15 de fevereiro de 2012, já se passaram 3 anos desde o início dessa jornada (entendeu porque muita gente desiste?). Dia em que o dossier deles foi enviado para o Canada. Mais uma vez, hora de aguardar. Felizmente, nessa parte do processo, era possível acompanhar o andamento através da internet, pelo eCas. No dia 20 de fevereiro foi acusado o recebimento do dossier em Sydney. Não demorou muito e no dia 15 de março (quase 1 mês depois) eles receberam o e-mail com o número da demanda para que pudessem acompanhar o processo e a informação de que o dossier foi enviado ao consulado do Canada em São Paulo.

Uma nova tentativa

As missões de recrutamento no Brasil dão sempre uma nova esperança aos que se preparam, estudam francês e tem experiência de sobra. As chances de conseguir um emprego e partir rumo às terras geladas são maiores, principalmente para os profissionais de TI. Esse foi o caso dele.

Um tapa no CV, uma ajeitada no francês, aquela vasculhada nas vagas da missão e pronto. Duas entrevistas marcadas para o dia 25 de agosto de 2012. As chances de conseguir um emprego eram ainda maiores, já que o CSQ já estava nas mãos. Ainda assim, dependia do interesse das empresas pelo seu perfil. O tempo passa, novas entrevistas para o processo de contratação e no dia 27 de setembro ele assina o contrato. Esse era o começo de uma nova vida.

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A única coisa que faltava era conseguir acelerar o processo federal e partir com o visto de residência permanente. Mas seria possível? Um cenário praticamente perfeito! Chegar como residente e já empregado… Não custava tentar. No dia 1 de outubro ele foi entregar, pessoalmente, o contrato assinado no consulado do Canada, pedindo prioridade. Seu processo já estava em andamento e ele já tinha um emprego, com prioridade ou não, a ida para o Québec já era mais do que certa, mas porque não ser ainda melhor?

Dois meses e muitas emoções

Um mês se passou e no dia 6 de novembro de 2012 ele recebe a ligação de um agente de imigração informando a priorização da demanda e que o pedido dos exames médicos seriam enviados, em breve, pelos correios. Ele então foi buscar direto na fonte, vai que os correios entram em greve, né?

13 de novembro de 2012! Exames médicos feitos e enviados para Ottawa no dia 22 de novembro. Até que foi rápido. Agora era hora de aguardar novamente. Como ele preferiu não esperar muito, enviou os passaportes para o consulado, no dia 26 de novembro, antes mesmo da solicitação, afinal, era apenas isso que faltava. No dia 27 de novembro, os resultados chegaram em Ottawa. Maravilha! Estava indo mais rápido do que ele imaginava.

Apesar disso, o sistema eCas só acusou o recebimento dos exames no dia 13 de dezembro de 2012. Agora faltava muito pouco! Obviamente a ansiedade e a alegria andavam juntos. Cada novidade era a esperança de que tudo estava nos conformes e que o sonho estava se realizando. 20 de dezembro: o eCas acusa a emissão dos vistos! WOW! Agora eles só aguardavam o retorno dos passaportes. A ansiedade era demais! Então ele decidiu ligar para o consulado, no dia 27 de dezembro e, para sua surpresa, os passaportes estavam lá, aguardando para serem enviados! Não deu outra! Ele parou o que estava fazendo e foi buscar o melhor presente de Natal (atrasado) que poderiam receber.

Que comece a aventura!!!

Foi no dia 11 de março 2013 que eles embarcaram para a maior aventura de suas vidas! Uma mudança sem precedentes. Porém, graças à certos imprevistos no aeroporto de Miami e muitos atrasos depois, conseguiram chegar no dia 13 de março em Montréal. Landing feito!

161083A essa altura do campeonato você já deve ter percebido que se passaram 4 anos desde o início do projeto de imigração e que não há um meio mais fácil ou rápido de chegar no Canada! É aqui que apenas 5 pessoas conseguiam ter esperanças e que realizar esse sonho seria possível. Mas acredite ou não, é só quando se chega às terras “iceberguianas” que a imigração começa de verdade. Esse processo nada mais é do que uma formalização do sonho, da vontade, luta e esforço. Basta seguir os passos descritos pelos governos provincial e federal e aguardar. Não há muito o que fazer para as coisas andarem rápido. O importante é manter a cabeça erguida, não perder as esperanças e ter paciência.

O que acontece depois?

Continua…


Glossário deste post

  • CSQ – Certificat de sélection du Québec (Certificado de seleção do Québec, viu como francês é fácil?);
  • BIQ – Bureau d’immigration du Québec (Escritório de imigração do Québec, você já sabia o que era bureau, diz aí);
  • CV – Curriculum Vitae (em francês é a mesma coisa, até porque isso é latin);
  • eCas – Electronic Check Application Status (Sistema eletrônico de checagem de status, pra quem não sabia ainda o que isso queria dizer);
  • TI – Tecnologia da informação;
  • WOW – World of Warcraft! (brincadeira, é só uma expressão mesmo);
  • Terras “iceberguianas” – simplesmente porque pra saber o frio que faz aqui, só criando expressões assim!

 

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2 comentários em ““Ir pra outro país é fácil!”

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